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  • Foto do escritorCaroline A. Pinheiro da Costa

Pequenas reflexões sobre o negacionismo namastê, estudo da mente e discursos de poder

No dia 24 de Setembro um repórter do Piauí João Batista Jr. publicou uma reportagem no site da revista correlacionando o movimento negacionista e anti-vacina aos professores de yoga. Ele menciona a psicóloga Dra. Carine Farias no início do texto. Ela é professora de psicologia numa das principais universidades do Brasil e possui um mestrado e um doutoramento em ciências da mente. Além disso, ela ensina práticas de Yoga há uma década. As declarações de Farias envolvem algumas premissas e conclusões que, para ela, resultam na justificação do argumento de que "não se pode confiar nas vacinas, não importa o fabricante".


Uma vez que ela tem tantos títulos académicos, presume-se que se banha em conhecimentos científicos para sustentar os seus pensamentos. Para Foucault, conhecimento é poder. Portanto, Dra. Farias estaria banhada de poder perante seus alunos. A sua influência - como professora das ciências da mente - é intrínseca à ideia de que ela compreende o que a saúde do corpo humano e da mente requerem hoje em dia. Ela explica que está consciente da sua mente e das suas crenças que afirma: "Chamam-me negacionista mas é precisamente o oposto: Eu sou uma questionadora". Também, para Foucault, relativamente ao tema "vida", dentro das ciencias da mente, a psicologia é substituída pela psicanálise, e assume protagonismo que uma estrutura uniforme conhecida como "o inconsciente" habita cada um de nós de formas mais ou menos idênticas. (McHoul e Grace 1995 p.33) De fato, ela liga muitas premissas no seu discurso à defesa da liberdade de escolha com base no que ela chama de ciência.


Em conformidade com o seu discurso, é possível perceber que Dra. Farias acredita que as suas afirmações são verdadeiras e científicas. O que ela testemunhou no seu ambiente e a forma como lê a realidade é suficiente para entrar em contato com "o que é verdade". A ideia alternativa de que a verdade depende do que alguém acredita chama-se dentro dos estudos de pensamento critico de relativismo subjetivo. Se aceitarmos esta noção ou a usar para tentar apoiar uma afirmação, diz-se que está cometendo um erro de raciocínio conhecido como a falácia subjetivista. Este termo busca traduzir que a verdade não depende da forma como as coisas são, mas apenas daquilo em que alguém acredita. (Mac Donald e Vaughn 2019 p.46)


Roberto Simões é também pesquisador do yoga, doutor e professor no Brasil. Ele estuda as ciências da mente, religião e Yoga há mais de uma década. Na sua página Instagram, ele publicou: "O Yoga não mudou, continua a ser híbrido e plural. O que mudou (e muito) é a estrutura social em que eles (os yogas) viveram". É abertamente um defensor da vacina Covid e explica que o "negacionismo namaste" é real uma vez que se entra em contato com uma ideia de paz capitalista vendida em cada aula de yoga. Em vez disso, ele diz que "não vale a pena pensar num retorno idílico, o que proponho é arregaçar as mangas e abrir juntos novas clareiras iogues para pensar e viver aqui, em solo brasileiro". O seu discurso levanta a ideia de que os iogues devem abrir os olhos da meditação para se conectarem à vida real.


Foucault menciona que os discursos não representam meramente "o real", mas, de fato, fazem parte da produção de um sentido mais profundo. Portanto, o discurso "melhor" não pode ser decidido comparando-o com qualquer objeto real, mas sim subjetivando-o e encontrando o discurso por tras do discurso. O objeto 'real' simplesmente não está disponível para comparação fora da sua construção discursiva. Em vez disso, os discursos (formas de representação) podem ser testados em termos de como podem intervir em lutas locais. (McHoul and Grace 1995 p.35) O professor Simões tem uma linhagem crítica de pensamento baseada no mesmo termo que Farias utilizou no seu argumento: ciência. Mas, na verdade, ele apela à ciência humana mencionando a herança histórica do yoga e como este se tornou outro produto quando entrou em contacto com o cristianismo e a Europa.





Bibliografia


Mac Donald e Vaughn (2019). O Poder do Pensamento Crítico. 5ª Edição. Oxford University Press.


McHoul e Grace (1995). A Foucault Primer Discourse, Power and The Subject. Routledge.


Piauí: Folha de S. Paulo; UOL. (2021a, 24 de Setembro;15h17). O MANTRA DO NEGACIONISMO NAMASTÊ. https://piaui.folha.uol.com.br/o-mantra-do-negacionismo-namaste/  


Yoga_Contemporaneo. (2021a, 23 de Setembro) O yoga não mudou, continua híbrido e plural. Post do Instagram: https://www.instagram.com/p/CUKXl2pr4UE/ 



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